{"id":5834,"date":"2019-03-31T14:34:00","date_gmt":"2019-03-31T12:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cglem.org\/a-duvida\/"},"modified":"2025-06-13T11:26:42","modified_gmt":"2025-06-13T09:26:42","slug":"a-duvida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/montebelli-pt-pt\/a-duvida\/","title":{"rendered":"A d\u00favida"},"content":{"rendered":"\n<p>Caro leitor na forma adequada de sauda\u00e7\u00e3o!<br\/><br\/><\/p>\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Quanto mais aprendo, menos sei: Penso que Goethe quis dizer isto quando afirmou que &#8220;a d\u00favida cresce com o conhecimento&#8221;, que a d\u00favida aumenta o conhecimento.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Vivemos num mundo profano regido pela cultura das certezas, quase sempre ef\u00e9meras e falaciosas, mas consideradas infal\u00edveis, tal como o Titanic foi declarado inafund\u00e1vel. Neste oceano de falsas verdades, a b\u00fassola da d\u00favida ajuda-nos a navegar atrav\u00e9s do que observamos, do que pensamos e do que vivemos.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>O desafio que cada ma\u00e7on enfrenta todos os dias \u00e9 um desafio de tomada de consci\u00eancia, muito dif\u00edcil de enfrentar, quando o orgulho de ter iniciado e progredido num caminho de conhecimento, um caminho feito de experi\u00eancias e de aperfei\u00e7oamentos pagos a um pre\u00e7o elevado, se op\u00f5e ao medo de olhar para a borda do abismo da sua pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia e incompletude. A consci\u00eancia de sermos ef\u00e9meros e falaciosos, a aceita\u00e7\u00e3o dos nossos limites e lacunas requer uma grande for\u00e7a: a for\u00e7a de reconhecer que \u00e9 exatamente isso que nos torna divinamente humanos.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>\u00c9 assim que o ma\u00e7on, alimentando as suas d\u00favidas, alimenta a sua fome de Verdade.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>A pesquisa da Verdade \u00e9 a tarefa mais dif\u00edcil para todos os Ma\u00e7ons, porque sabem que \u00e9 um caminho que nunca ter\u00e1 fim. A cada ma\u00e7on foi ensinado que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel possuir a Verdade, uma vez que ela n\u00e3o pode ser captada por dedu\u00e7\u00e3o, mas apenas por intui\u00e7\u00e3o, e sempre de uma forma parcial e tempor\u00e1ria, nunca na sua totalidade. Nunca possu\u00edmos a Verdade; quando muito, nos raros momentos em que vislumbramos a Luz como clar\u00f5es, \u00e9 a Verdade que nos possui. E neste caminho de conhecimento, a d\u00favida n\u00e3o \u00e9 um v\u00e9u diante da Luz: a d\u00favida \u00e9 coragem, \u00e9 pesquisa, \u00e9 um motor. A d\u00favida \u00e9 uma cura: a cura contra o mal-estar do ser humano que tenta progredir sem se agarrar a certezas. Acreditar que uma verdade j\u00e1 est\u00e1 revelada (duas vezes velada) conduz ao dogma, \u00e0 impossibilidade de p\u00f4r em causa o que intu\u00edmos: a d\u00favida \u00e9, pois, destacada como um dos elementos que distingue a Ma\u00e7onaria das Religi\u00f5es. Estes \u00faltimos exortam, de facto, a confiar em Deus e n\u00e3o no Homem, enquanto a Ma\u00e7onaria confia no Homem, porque nela reconhece tanto a natureza humana como a divina.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Assim, se na base da Religi\u00e3o est\u00e1 o dogma, na base da Ma\u00e7onaria est\u00e1 a d\u00favida: a d\u00favida \u00e9 o ant\u00eddoto contra o dogma, \u00e9 a cura contra um veneno que tem por efeito narcotizar o livre pensamento, administrando-lhe uma verdade c\u00f3moda e j\u00e1 revelada, perante a qual j\u00e1 n\u00e3o se deve pensar, mas apenas acreditar. O dogma, afinal, \u00e9 uma resposta \u00e0 fragilidade humana, ou melhor, \u00e0 nossa frangibilidade: somos frang\u00edveis e temos medo. A d\u00favida, por outro lado, \u00e9 a resposta do Homem ao medo de cair na armadilha das verdades f\u00e1ceis, pr\u00eat a porter, dispon\u00edveis a baixo custo, j\u00e1 embaladas e prontas a usar como um fast-food e, portanto, com a mesma necessidade de serem consumidas rapidamente, antes que o pensamento livre possa despertar do torpor que as p\u00f5e em causa.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Onde a Religi\u00e3o nos imp\u00f5e &#8220;Tende F\u00e9!&#8221;, a Ma\u00e7onaria exorta-nos: &#8220;Tenham d\u00favidas!&#8221;<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>No nosso caminho de eleva\u00e7\u00e3o, temos tamb\u00e9m de aprender a render-nos \u00e0 onda da d\u00favida. Por vezes, podemos ser tentados a sentir-nos como se f\u00f4ssemos \u00e1rvores; \u00e1rvores magn\u00edficas, solenes, altas, enraizadas em certezas s\u00f3lidas e fortes que nos permitem subir em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u e empurrar os nossos ramos e as nossas frondes cada vez mais alto em busca da Luz. E \u00e9 a\u00ed que a d\u00favida surge, como a cheia de um rio que acumulou demasiada \u00e1gua. E se a onda n\u00e3o for suficientemente forte, ent\u00e3o uma barragem desmoronar-se-\u00e1, e se n\u00e3o for novamente suficiente, um tsunami atingir\u00e1 as nossas costas: quanto mais tentarmos resistir, mais devastadora ser\u00e1 a onda que nos submergir\u00e1, arrancando todas as certezas a que nos agarramos, levando-nos finalmente para longe, para novos horizontes, para um novo conhecimento e uma nova Luz.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Porque n\u00f3s somos Homens, n\u00e3o somos \u00e1rvores. Somos Ma\u00e7ons, e o nosso n\u00e3o \u00e9 um caminho que tem um ponto de partida e um ponto de chegada, mas sim um caminho cujo destino \u00e9 o movimento e cuja ess\u00eancia \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o, e cujo objetivo final n\u00e3o \u00e9 enraizar novas certezas, mas sim descobrir uma nova Luz nos territ\u00f3rios para onde a d\u00favida nos transportar\u00e1 e onde chamaremos sempre &#8220;Casa&#8221; ao nosso Templo, e &#8220;Fam\u00edlia&#8221; \u00e0 nossa Loja.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>A d\u00favida \u00e9 coragem, \u00e9 investiga\u00e7\u00e3o, \u00e9 um motor. A d\u00favida \u00e9 o ant\u00eddoto e a cura.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Na minha experi\u00eancia de ma\u00e7on, a d\u00favida tem sido tamb\u00e9m uma ferramenta, uma ferramenta di\u00e1ria para o meu trabalho, que foi acrescentada a uma caixa de ferramentas j\u00e1 bem equipada que cont\u00e9m a perpendicular e o n\u00edvel, o esquadro e o compasso, etc. Ferramentas que, ao longo do tempo, vou aprendendo a utilizar, estando consciente, mesmo neste caso, de que, \u00e0 medida que aprendo a utiliz\u00e1-las, descubro novas funcionalidades, novas utiliza\u00e7\u00f5es, novas possibilidades inexploradas e ainda por aprender.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Mas a d\u00favida \u00e9 uma ferramenta diferente de todas as outras, porque n\u00e3o \u00e9 uma ferramenta de constru\u00e7\u00e3o, mas uma ferramenta de destrui\u00e7\u00e3o. E faz o seu trabalho muito bem, porque \u00e9 capaz de desmoronar as minhas ilus\u00f5es, as minhas convic\u00e7\u00f5es confort\u00e1veis, as projec\u00e7\u00f5es do meu ego e todas as falsas verdades.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>\u00c9 uma ferramenta \u00fanica no seu g\u00e9nero, porque serve para abrir fendas e perceber que, para usar as palavras do irm\u00e3o Leonard Cohen: &#8220;H\u00e1 uma fenda em tudo: \u00e9 assim que a Luz entra&#8221;.<br\/><br\/>Foi o que eu disse&#8230;<br\/><br\/><\/p>\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Br\u2234 E\u2234 C\u2234<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quanto mais aprendo, menos sei: Penso que Goethe quis dizer isto quando afirmou que \u201ca d\u00favida cresce com o conhecimento\u201d, que a d\u00favida aumenta o conhecimento.<\/p>\n<p>Vivemos num mundo profano regido pela cultura das certezas, quase sempre ef\u00e9meras e falaciosas, mas tidas como infal\u00edveis&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5835,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[56],"tags":[],"class_list":["post-5834","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-montebelli-pt-pt"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5834","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5834"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5834\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5835"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5834"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5834"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5834"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}