{"id":5848,"date":"2016-03-30T11:16:00","date_gmt":"2016-03-30T09:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cglem.org\/introducao-ao-estudo-do-tema-do-c-g-l-e-m-o-rei-esta-nu\/"},"modified":"2025-06-13T11:19:43","modified_gmt":"2025-06-13T09:19:43","slug":"introducao-ao-estudo-do-tema-do-c-g-l-e-m-o-rei-esta-nu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cglem.org\/pt-pt\/montebelli-pt-pt\/introducao-ao-estudo-do-tema-do-c-g-l-e-m-o-rei-esta-nu\/","title":{"rendered":"Introdu\u00e7\u00e3o ao estudo do tema do C.G.L.E.M. &#8220;O Rei est\u00e1 nu&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\">Caro leitor na forma adequada de sauda\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n<p><br\/><\/p>\n\n<p>Era uma vez um rei cujo \u00fanico interesse na vida era vestir-se com roupas da moda. Estava sempre a mudar de roupa para que as pessoas o pudessem admirar. Uma vez, dois ladr\u00f5es decidiram dar-lhe uma li\u00e7\u00e3o. Disseram ao rei que eram \u00f3ptimos alfaiates e que podiam fazer-lhe um belo fato novo. Seria t\u00e3o leve e fino que pareceria invis\u00edvel. S\u00f3 os est\u00fapidos \u00e9 que n\u00e3o o conseguiam ver. O rei ficou muito entusiasmado e ordenou aos novos alfaiates que come\u00e7assem a trabalhar.      <\/p>\n\n<p><br\/><\/p>\n\n<p>Assim come\u00e7a uma das f\u00e1bulas mais peculiares e aleg\u00f3ricas de Hans Christian Andersen. Lembra-se da continua\u00e7\u00e3o? <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Um dia, o rei pediu ao primeiro-ministro para ir ver o trabalho que os dois alfaiates tinham feito. Viu os dois homens a moverem tesouras no ar, mas n\u00e3o viu nenhum tecido! Calou-se com medo de ser chamado de est\u00fapido e ignorante. Em vez disso, elogiou o tecido e disse que era maravilhoso. Finalmente, o vestido novo do rei estava pronto. N\u00e3o conseguia ver nada, mas tamb\u00e9m ele n\u00e3o queria parecer est\u00fapido. Admirou o vestido e agradeceu aos alfaiates. Foi-lhe pedido que desfilasse pela rua para que todos vissem as roupas novas. O rei desfilou pela rua principal. O povo s\u00f3 podia ver um rei nu, mas ningu\u00e9m o admitia por medo de ser considerado est\u00fapido. Louvaram insensatamente o tecido invis\u00edvel e as cores. O rei ficou muito contente. Por fim, uma crian\u00e7a gritou: &#8220;O rei est\u00e1 nu!&#8221;. Em breve, todos come\u00e7aram a murmurar a mesma coisa e, muito rapidamente, todos gritaram: &#8220;O rei n\u00e3o est\u00e1 a usar nada!&#8221;             <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>O tema de estudo proposto pela Confedera\u00e7\u00e3o das Grandes Lojas da Europa e do Mediterr\u00e2neo envolve muitos aspectos das din\u00e2micas relacionais entre os povos do chamado bloco ocidental, por um lado, e os da zona isl\u00e2mica \u00e1rabe-africana, por outro, sendo o Mediterr\u00e2neo uma encruzilhada e uma pedra angular onde essas din\u00e2micas se concretizam. \u00c9 claro que estas rela\u00e7\u00f5es acarretam problemas complexos e diferenciados, desde a emigra\u00e7\u00e3o em massa \u00e0 guerra e \u00e0 pobreza que a gera; desde a tentativa de alguns povos isl\u00e2micos de se emanciparem de governos teocr\u00e1ticos, \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o levada a cabo pelos fundamentalistas religiosos; desde o nascimento do Estado Isl\u00e2mico do Isis e os ataques terroristas em locais que s\u00e3o s\u00edmbolos do bem-estar ocidental, \u00e0s respostas dos governos europeus que p\u00f5em em evid\u00eancia todas as divis\u00f5es internas e a diferen\u00e7a de vis\u00e3o do que se define como uma Uni\u00e3o de Estados. No entanto, todos estes temas t\u00eam um substrato comum que tem muitas semelhan\u00e7as com o conto de Anderson, porque a maioria das pessoas prefere uma abordagem baseada numa realidade conveniente \u00e0 qual obedece e na qual acredita, em vez de investigar e lidar com o que a raz\u00e3o e a honestidade intelectual nos mostrariam como verdadeiro. Veremos como o nosso principal inimigo \u00e9 representado pela ignor\u00e2ncia e pela hipocrisia, pelo manto de respeitabilidade com que a chamada opini\u00e3o p\u00fablica cobre as suas posi\u00e7\u00f5es, defendendo-as at\u00e9 ao fim, mesmo perante provas contr\u00e1rias. Temos a obriga\u00e7\u00e3o de as desmascarar, n\u00e3o s\u00f3 em nome da verdade, mas sobretudo porque estamos conscientes de que \u00e9 imposs\u00edvel lan\u00e7ar as bases de uma solu\u00e7\u00e3o eficaz para este problema se elas n\u00e3o forem tratadas na sua verdadeira natureza e subst\u00e2ncia.    <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Hoje tentaremos seguir essa via, conscientes, no entanto, de que, nestas circunst\u00e2ncias, n\u00e3o podemos deixar de fazer generaliza\u00e7\u00f5es e de omitir outros elementos de igual valor e import\u00e2ncia relativamente a este tema. No entanto, o nosso objetivo n\u00e3o \u00e9 ser exaustivo e conclusivo, mas sim suscitar d\u00favidas e dar que pensar. Pensar em ter uma vis\u00e3o completa e definitiva sobre tantas situa\u00e7\u00f5es complexas e interligadas \u00e9 imposs\u00edvel. \u00c9 imposs\u00edvel pensar em fazer ju\u00edzos definitivos e inequ\u00edvocos, sem ser apanhado pelas emo\u00e7\u00f5es induzidas pelos acontecimentos mais dram\u00e1ticos, sejam eles sentimentos de pena pela trag\u00e9dia dos migrantes ou de raiva pelos ataques terroristas. \u00c9 tamb\u00e9m imposs\u00edvel n\u00e3o suscitar uma cr\u00edtica ainda mais feroz, seja qual for o argumento invocado. Afinal, o que cada um pode perceber da realidade \u00e9 a sua pr\u00f3pria perspetiva, um ponto de vista que, partindo de certos pressupostos, analisa os factos e forma uma opini\u00e3o. Mas n\u00e3o deixam de ser perspectivas ou, para continuar com a nossa met\u00e1fora, roupas com as quais escolhemos revestir a realidade, tentando convencer os outros (e a n\u00f3s pr\u00f3prios) de que s\u00e3o as mais belas poss\u00edveis, sem nos apercebermos de como podem parecer invis\u00edveis para os outros. Assim, temos aqueles que desfilam com a indument\u00e1ria da bondade, da compaix\u00e3o, da solidariedade e da hospitalidade, sempre e em qualquer circunst\u00e2ncia, e aqueles que usam o manto da intoler\u00e2ncia, do racismo, do nacionalismo e da xenofobia. Para al\u00e9m destas perspectivas, destas atitudes, destes revestimentos, como ma\u00e7ons devemos ter a for\u00e7a e a capacidade de expor a nudez do rei, de apresentar e abordar os problemas do nosso tempo pelo que eles realmente s\u00e3o, propondo ac\u00e7\u00f5es e solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis que n\u00e3o visem outro interesse que n\u00e3o o bem da humanidade. N\u00e3o o bem de na\u00e7\u00f5es individuais, de estados individuais, do nosso pr\u00f3prio grupo social, classe, vantagem pessoal; a a\u00e7\u00e3o deve ser tomada n\u00e3o favorecendo os nossos pr\u00f3prios medos ou desejos, mas perseguindo o bem da humanidade. A primeira coisa a fazer \u00e9 abandonar todas as formas de preconceito e de parcialidade, convencermo-nos de que um assassino \u00e9 tal independentemente da sua nacionalidade ou da sua religi\u00e3o, que um ladr\u00e3o \u00e9 tal onde quer que roube, que um faminto ou um necessitado merece a mesma solidariedade independentemente da cor da sua pele, porque somos todos filhos da descend\u00eancia humana. Como ma\u00e7ons, n\u00e3o podemos nem devemos negar-nos a nossa responsabilidade na busca da verdade, conscientes de que \u00e9 nosso dever investigar a realidade por detr\u00e1s das apar\u00eancias, para al\u00e9m dos clich\u00e9s, para al\u00e9m do conformismo e do moralismo de qualquer tipo.           <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Come\u00e7aremos pela quest\u00e3o mais importante do substrato do nosso tema, que \u00e9 o pivot sobre o qual todas as outras quest\u00f5es parecem girar, ou seja, a quest\u00e3o religiosa, porque n\u00e3o podemos negar a import\u00e2ncia que a religi\u00e3o desempenha na carateriza\u00e7\u00e3o da identidade dos povos mu\u00e7ulmanos, sobretudo, bem como nas suas rela\u00e7\u00f5es com os pa\u00edses ocidentais. O Isl\u00e3o, de facto, n\u00e3o \u00e9 visto simplesmente como uma express\u00e3o de uma esfera religiosa individual, como o cristianismo atual \u00e9 para os ocidentais, mas permeia total e completamente todos os aspectos da vida pessoal, social, jur\u00eddica e econ\u00f3mica dos mu\u00e7ulmanos. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja regulada pelo Alcor\u00e3o ou pela Sunnah, que \u00e9 a cole\u00e7\u00e3o de anedotas do que o Profeta disse ou fez. Antes mesmo da teologia, o Isl\u00e3o \u00e9 uma lei e um sistema jur\u00eddico ao qual o indiv\u00edduo se deve submeter, e Shari&#8217;a (&#8220;lei&#8221;) \u00e9 o termo que mais do que qualquer outro caracteriza a sua ess\u00eancia.   <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Embora sejam muito diferentes, uma vez que todos est\u00e3o conscientes de que o aspeto religioso foi e continua a ser o principal fator que dificulta o di\u00e1logo entre os povos, muitos tentaram encontrar elementos que possam comparar a religi\u00e3o de Maom\u00e9 com as outras duas grandes religi\u00f5es da zona mediterr\u00e2nica, a judaica e a crist\u00e3, na esperan\u00e7a de que, apoiando-se nesses elementos, se possa desvanecer a cont\u00ednua liga\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as religiosas para justificar qualquer forma de conflito. Com isto em mente, foi iniciado um processo de di\u00e1logo inter-religioso em busca de fundamentos teol\u00f3gicos para apoiar poss\u00edveis pontos de contacto. Em particular, foi salientado o facto de todas elas serem religi\u00f5es monote\u00edstas, de partilharem um patriarca comum, Abra\u00e3o, e de as tr\u00eas se basearem na revela\u00e7\u00e3o de Deus registada num livro sagrado, raz\u00e3o pela qual s\u00e3o tamb\u00e9m chamadas &#8220;religi\u00f5es do Livro&#8221;. Mas, numa an\u00e1lise mais aprofundada, nenhum destes elementos pode ser verdadeiramente definido como comum \u00e0s tr\u00eas religi\u00f5es; ou melhor, nenhum destes elementos \u00e9 interpretado da mesma forma ou com o mesmo significado.   <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>A afinidade atribu\u00edvel \u00e0 linhagem comum abra\u00e2mica n\u00e3o vai, de facto, al\u00e9m da figura do pr\u00f3prio Abra\u00e3o, e as diferen\u00e7as emergem claramente desde os seus descendentes imediatos. Na B\u00edblia, encontramos que a alian\u00e7a entre YHWH e o patriarca, baseada na promessa de Deus de lhe conceder muitos descendentes, atrav\u00e9s dos quais todos os povos da terra seriam aben\u00e7oados, se realiza com o nascimento de Isaac e, atrav\u00e9s dele, chega at\u00e9 Jesus Cristo, atrav\u00e9s do qual se cumpre a alian\u00e7a entre o homem e Deus Pai. No Alcor\u00e3o, Abra\u00e3o \u00e9 o primeiro dos profetas, o &#8220;amigo de Deus&#8221; cuja linhagem \u00e9 continuada pelo filho primog\u00e9nito Ismael, gerada com a escrava eg\u00edpcia Agar, e cumprida com Maom\u00e9, Selo dos Profetas e \u00faltimo mensageiro da vontade de Deus. Abra\u00e3o e Ismael, inspirados por Deus, fundam a cidade santa de Meca e constroem a Ka&#8217;ba, o lugar mais sagrado do Isl\u00e3o. No Alcor\u00e3o encontram-se algumas das figuras b\u00edblicas, incluindo Jesus, mas todas com uma conota\u00e7\u00e3o muito diferente da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3. O Isl\u00e3o afirma ter a interpreta\u00e7\u00e3o correcta, sendo o \u00faltimo na ordem cronol\u00f3gica a receber, atrav\u00e9s de Maom\u00e9, a revela\u00e7\u00e3o divina. As diferen\u00e7as seriam ent\u00e3o atribu\u00eddas a mal-entendidos e erros cometidos por judeus e crist\u00e3os na interpreta\u00e7\u00e3o da vontade divina.      <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Tamb\u00e9m a alegada liga\u00e7\u00e3o baseada no monote\u00edsmo deve ser avaliada \u00e0 luz destas considera\u00e7\u00f5es: n\u00e3o basta apoiar a exist\u00eancia de um Deus para ser chamado de convergente, \u00e9 necess\u00e1rio examinar a natureza desse Deus e, no caso do juda\u00edsmo, do cristianismo e do islamismo, essa natureza divina \u00e9 muito diferente. Por um lado, temos o Deus libertador dos judeus, o Deus juiz e legislador que escolheu estar ligado ao seu pr\u00f3prio povo, oferecendo-se a si pr\u00f3prio atrav\u00e9s da incarna\u00e7\u00e3o e crucifica\u00e7\u00e3o do Filho e do dom do Esp\u00edrito, pedras angulares teol\u00f3gicas do cristianismo. Por outro lado, o Deus do Isl\u00e3o, absolutamente transcendente, arbitr\u00e1rio, imprevis\u00edvel e incognosc\u00edvel, para o qual nunca poder\u00e1 haver qualquer possibilidade de &#8220;encontro&#8221; entre Ele e os homens, mesmo para os justos ap\u00f3s a morte. Al\u00e9m disso, o Isl\u00e3o n\u00e3o considera o cristianismo verdadeiramente monote\u00edsta, mas &#8220;trite\u00edsta&#8221;, devido \u00e0 dificuldade em compreender a natureza do dogma trinit\u00e1rio.   <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Falemos finalmente do &#8220;Livro&#8221;, que \u00e9 a poss\u00edvel afinidade das tr\u00eas religi\u00f5es pelo facto de se basearem na revela\u00e7\u00e3o contida no livro sagrado. Estamos, de facto, a enfrentar talvez a diferen\u00e7a mais incompat\u00edvel. N\u00e3o basta que cada religi\u00e3o se baseie no que \u00e9 revelado pela divindade e que essa revela\u00e7\u00e3o tenha sido registada num texto, se o que foi revelado e as formas como essas revela\u00e7\u00f5es foram pregadas diferem consideravelmente umas das outras. A B\u00edblia \u00e9 um texto inspirado, n\u00e3o ditado, por Deus, e formou-se ao longo de mais de 10 s\u00e9culos com v\u00e1rias camadas e revis\u00f5es subsequentes, com as quais muitos escritores interpretaram o pensamento divino transmitindo-o de muitas maneiras e n\u00e3o sem algumas contradi\u00e7\u00f5es. O Alcor\u00e3o foi, pelo contr\u00e1rio, escrito num per\u00edodo de tempo relativamente curto, nos anos imediatamente a seguir \u00e0 morte de Maom\u00e9, e relata apenas o que Al\u00e1 revelou ao Profeta, sem coment\u00e1rios ou interpreta\u00e7\u00f5es do seu profeta. Mas \u00e9 sobretudo na pr\u00f3pria ideia de Deus e da sua rela\u00e7\u00e3o com a humanidade que se manifestam as maiores diferen\u00e7as. A B\u00edblia \u00e9 basicamente uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias, sobre o desenrolar e a evolu\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de Deus com os homens, das interven\u00e7\u00f5es de Deus na hist\u00f3ria humana, de forma a determinar o seu desenvolvimento, at\u00e9 chegarmos \u00e0 pr\u00f3pria encarna\u00e7\u00e3o da Palavra divina num homem. Deus revela-se e faz-se homem entre os homens, toma sobre si o seu destino para redimir a sua exist\u00eancia. H\u00e1 um interc\u00e2mbio cont\u00ednuo entre Deus e as suas criaturas, at\u00e9 ao advento de Cristo, que \u00e9 o cumprimento da Revela\u00e7\u00e3o e o in\u00edcio de uma nova era para a humanidade. No Isl\u00e3o n\u00e3o existe qualquer forma de participa\u00e7\u00e3o de Al\u00e1 na vida dos homens, Ele continua a ser uma entidade absolutamente transcendente e arbitr\u00e1ria, incognosc\u00edvel e incompreens\u00edvel, \u00e0 qual os homens s\u00f3 podem obedecer esperando a sua miseric\u00f3rdia. O Alcor\u00e3o \u00e9 em si mesmo a revela\u00e7\u00e3o de Deus, por isso os sunitas dizem que \u00e9 incriado e guardado entre o pr\u00f3prio Al\u00e1, considerando-o imut\u00e1vel e n\u00e3o sujeito a mudan\u00e7as e\/ou interpreta\u00e7\u00f5es ao longo do tempo. O Deus crist\u00e3o, imerso na hist\u00f3ria dos homens, faz-se participante do sofrimento humano para os redimir, e a sua a\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria serve para emancipar os homens do sofrimento. O Deus do Isl\u00e3o, ausente e transcendente, \u00e9 insens\u00edvel ao sofrimento dos seres humanos, de tal modo que a pr\u00f3pria humanidade parece, por vezes, ficar insens\u00edvel ao seu pr\u00f3prio sofrimento (e ao dos outros). Um Deus que n\u00e3o actua na hist\u00f3ria n\u00e3o cria hist\u00f3ria, no sentido de luta pelo progresso e pela emancipa\u00e7\u00e3o. O mundo isl\u00e2mico parece suspenso entre um passado que j\u00e1 n\u00e3o existe e um futuro que nunca existir\u00e1, privando assim o tempo presente de qualquer sentido, exceto o de se perpetuar num abandono fatalista \u00e0 vontade de Deus.              <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Todos os argumentos apresentados para poss\u00edveis converg\u00eancias provaram ser enganadores e ilus\u00f3rios. N\u00e3o passam de roupas feitas de um tecido fr\u00e1gil, e s\u00f3 a nossa obstina\u00e7\u00e3o em procurar a todo o custo compromissos, semelhan\u00e7as, rela\u00e7\u00f5es onde elas n\u00e3o existem, nos leva a consider\u00e1-las reais. Em vez disso, temos de registar que o rei est\u00e1 nu!  <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio for\u00e7ar um acordo com base em elementos fr\u00e1geis. O di\u00e1logo inter-religioso deve basear-se em elementos alheios \u00e0 teologia e \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o das Escrituras, referindo-se explicitamente ao direito natural de cada homem de ver respeitada a sua ess\u00eancia. <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>S\u00f3 um contexto laico o pode garantir, onde entendemos o laicismo em vez do laicismo, ou seja, a sua degenera\u00e7\u00e3o na rejei\u00e7\u00e3o de todas as formas de religi\u00e3o como \u00fanica garantia de uma coexist\u00eancia pac\u00edfica, mas entendemo-lo antes como o \u00fanico quadro que pode e deve garantir a todos a livre express\u00e3o das suas cren\u00e7as religiosas.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>N\u00e3o se trata de uma forma de nega\u00e7\u00e3o, mas antes de uma aceita\u00e7\u00e3o por parte de todos, pelo que a liberdade oferecida a qualquer pessoa para exprimir livremente as suas cren\u00e7as religiosas sem receio de ser julgada ou, pior ainda, repudiada pelos outros, dever\u00e1 garantir a elimina\u00e7\u00e3o de qualquer poss\u00edvel fric\u00e7\u00e3o.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>A pluralidade religiosa deve ser considerada uma riqueza, dadas as m\u00faltiplas perspectivas do Divino proporcionadas, e um Estado laico deve ser o ambiente natural em que essas perspectivas podem ser exploradas por escolha, permitindo a ades\u00e3o efectiva \u00e0 dimens\u00e3o metaf\u00edsica ditada pela convic\u00e7\u00e3o \u00edntima e n\u00e3o pela tradi\u00e7\u00e3o ou cultura ou pela lei do Estado.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Este processo j\u00e1 se verificou em grande parte no mundo ocidental, sobretudo a partir do Iluminismo, que imp\u00f4s o uso da raz\u00e3o e da boa vontade como ferramentas para compreender a exist\u00eancia e o ser.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Desde ent\u00e3o, verificou-se uma evolu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua em todos os dom\u00ednios do conhecimento humano, e a clara supremacia obtida nas esferas tecnol\u00f3gica e econ\u00f3mica fez com que o modelo ocidental ganhasse vantagem e fosse difundido por toda a parte.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Houve um per\u00edodo em que esse dom\u00ednio se traduziu tamb\u00e9m numa verdadeira ocupa\u00e7\u00e3o territorial dos pa\u00edses mais atrasados.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Hoje em dia, pelo menos formalmente, quase todos os pa\u00edses est\u00e3o organizados em Estados independentes, livres da interfer\u00eancia pol\u00edtica e militar de outros; mas a economia mundial, que entretanto se tornou uma economia puramente financeira, continua a ser gerida por um grupo muito pequeno de pa\u00edses. Mesmo a \u00faltima revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, a que est\u00e1 ligada \u00e0s formas de comunica\u00e7\u00e3o e de controlo da informa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da Internet e das redes sociais, tornou-se um meio global atrav\u00e9s do qual todos os valores ou pseudo-valores do Ocidente foram renovados em todo o mundo. <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Em consequ\u00eancia de tudo isto, a f\u00e9 de n\u00f3s, ocidentais, alterou-se profundamente.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Talvez hoje possamos ver-nos mais como filhos do Iluminismo do que do Cristianismo, mas isso n\u00e3o significa que o progresso cient\u00edfico tenha cancelado o sentimento religioso das pessoas, antes pelo contr\u00e1rio, purificou-se gradualmente dos elementos supersticiosos, deslocando o foco dos efeitos para as causas. O Ocidente est\u00e1 a aperceber-se da nudez do rei, despertando assim, pouco a pouco, as consci\u00eancias individuais para o advento de um novo esp\u00edrito religioso, de dimens\u00e3o mais humana, n\u00e3o porque nos afastemos de Deus, mas porque a Sua presen\u00e7a \u00e9 agora sentida e vivida basicamente como experi\u00eancia \u00edntima interior. <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>A este respeito, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o Isl\u00e3o tem ainda um longo caminho a percorrer e muitos problemas a resolver.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>A conquista do secularismo \u00e9, pois, um grande desafio para os povos mu\u00e7ulmanos, divididos entre a convic\u00e7\u00e3o de seguir a religi\u00e3o \u00fanica e perfeita, de querer manter intactos os costumes e a lei isl\u00e2mica, por um lado, e o desejo de disponibilizar os benef\u00edcios materiais ligados ao modelo de vida ocidental, por outro, dando assim origem a profundas contradi\u00e7\u00f5es e fortes tens\u00f5es que provocam conflitos no seu interior mas tamb\u00e9m no exterior.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Pergunto-me at\u00e9 quando as classes altas \u00e1rabes, aquelas que det\u00eam as alavancas econ\u00f3micas e pol\u00edticas dos seus respectivos pa\u00edses, continuar\u00e3o a fingir vestir o traje da perfeita conformidade com as tradi\u00e7\u00f5es do Isl\u00e3o e, ao mesmo tempo, a usufruir de todos os benef\u00edcios materiais que o modelo ocidental de desenvolvimento produziu. Do meu ponto de vista, j\u00e1 s\u00e3o muitas as vozes que gritam que o rei est\u00e1 nu, porque \u00e9 precisamente nesta chave que penso que devemos interpretar o movimento conhecido como primavera \u00c1rabe: a tentativa de retirar a pol\u00edtica, a economia e as rela\u00e7\u00f5es sociais da interfer\u00eancia da esfera religiosa, que v\u00ea como um perigo e um inimigo qualquer desvio da Sharia. <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Sabemos que a tentativa n\u00e3o foi bem sucedida, mas entretanto as vozes levantaram-se, e eram as das gera\u00e7\u00f5es mais jovens, mais sens\u00edveis e prontas a receber novas inst\u00e2ncias. Os Estados isl\u00e2micos reprimem toda a dissid\u00eancia, mas a hist\u00f3ria ensina-nos que impedir o di\u00e1logo interno, considerando-o uma amea\u00e7a em vez de um trunfo, \u00e9 um \u00edndice de decad\u00eancia, uma admiss\u00e3o impl\u00edcita de fraqueza que, a longo prazo, s\u00f3 pode conduzir a uma renova\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es. <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Creio que a parte ocidental pode contribuir para o processo, n\u00e3o condenando e estigmatizando sistematicamente popula\u00e7\u00f5es inteiras pelo seu modo de vida por ser diferente do nosso, mas estimulando a reflex\u00e3o dos seus pr\u00f3prios jovens sobre a manuten\u00e7\u00e3o ou a supera\u00e7\u00e3o de modelos sociais e pol\u00edticos ultrapassados, sem que isso implique comprometer a sua f\u00e9 religiosa. Haver\u00e1 dificuldades e resist\u00eancias por parte dos guardi\u00e3es mais reaccion\u00e1rios e fundamentalistas da ortodoxia, mas quanto aos esfor\u00e7os do Isl\u00e3o para manter a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica fora do seu \u00e2mbito, n\u00e3o podem deixar de acontecer, mais cedo ou mais tarde. <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Perante esta press\u00e3o, os defensores da resist\u00eancia n\u00e3o hesitam em levantar o espetro da jiha&#8217;d, ou guerra santa, como a principal amea\u00e7a ao mundo ocidental, cada vez mais intrusivo e desrespeitador das tradi\u00e7\u00f5es do mundo \u00e1rabe. De facto, \u00e9 dever de todo o bom mu\u00e7ulmano combater os infi\u00e9is para os converter \u00e0 verdadeira religi\u00e3o, ou perecer no seu erro. Mas a amea\u00e7a da guerra santa \u00e9 o bicho-pap\u00e3o ainda mais invocado pelos activistas ocidentais, como principal argumento para justificar a necessidade de uma estrat\u00e9gia defensiva e a rejei\u00e7\u00e3o de todas as formas de coopera\u00e7\u00e3o com o mundo isl\u00e2mico, cujo \u00fanico objetivo parece ser destruir quem n\u00e3o \u00e9 mu\u00e7ulmano.  <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Ora, para al\u00e9m do facto de, mesmo entre judeus e crist\u00e3os, n\u00e3o faltarem os fundamentalistas mal dispostos a aceitar qualquer express\u00e3o de cren\u00e7as diferentes das suas, est\u00e1 fora de quest\u00e3o que esteja em curso um recrudescimento do terrorismo isl\u00e2mico.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Apesar da mais veemente condena\u00e7\u00e3o de todas as formas de viol\u00eancia, quaisquer que sejam as suas matrizes e motivos, dificilmente posso imputar a mil milh\u00f5es de mu\u00e7ulmanos a vontade un\u00e2nime e inequ\u00edvoca de matar pessoas inocentes s\u00f3 porque professam uma f\u00e9 diferente. Estou muito mais inclinado a acreditar que o jiha&#8217;d \u00e9 mais um vestido com quem tanto para um lado como para o outro, serve para vestir as ac\u00e7\u00f5es terroristas que causam derramamento de sangue agora n\u00e3o s\u00f3 no Ocidente. Mais uma vez, devemos ter a for\u00e7a de gritar que o rei est\u00e1 nu e que o terrorismo n\u00e3o pode ser simplesmente descartado como uma a\u00e7\u00e3o de extremistas isl\u00e2micos que pretendem punir o Ocidente blasfemo e infiel. Tem ra\u00edzes complexas, que se encontram nos p\u00e2ntanos dos assuntos econ\u00f3micos e financeiros, nos interesses relacionados com o controlo das regi\u00f5es estrategicamente mais importantes do mundo para a explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Da Al-Qaeda ao Estado Isl\u00e2mico do Isis, sinto-me mais inclinado a considerar o forte fundamentalismo religioso que os caracteriza como uma for\u00e7a coesa, o sentimento comum em que se basearam para reunir sob uma mesma bandeira o consentimento de pessoas movidas por motiva\u00e7\u00f5es heterog\u00e9neas de vingan\u00e7a contra a interfer\u00eancia ocidental no mundo mu\u00e7ulmano. O Isis, em particular, proclamou-se como um Estado soberano, com a inten\u00e7\u00e3o declarada de unir o mundo mu\u00e7ulmano sob o seu governo para restaurar a supremacia e o poder que o Isl\u00e3o detinha na era long\u00ednqua dos xeques, dando a todos os mu\u00e7ulmanos desejosos de reafirmar a sua identidade, uma oportunidade de reden\u00e7\u00e3o que afecta os interesses do imperialismo ocidental; com que m\u00e9todos e que consequ\u00eancias \u00e9 \u00f3bvio para todos.     <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>O fil\u00f3sofo e m\u00e9dico mu\u00e7ulmano Ibn-Sina, um dos mais conhecidos da antiguidade, conhecido pelo seu nome latino de Avicena, dizia que no tratamento das doen\u00e7as perniciosas, era de facto necess\u00e1rio tratar antes de os sintomas se manifestarem, devido aos seus efeitos debilitantes sobre o organismo, mas era necess\u00e1rio passar depois \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o das causas da doen\u00e7a, a fim de evitar que esta pudesse voltar a apresentar os mesmos sintomas negativos. O Ocidente est\u00e1 agora empenhado numa dura batalha para eliminar a amea\u00e7a Isis, mas isso n\u00e3o ser\u00e1 suficiente na medida em que acreditamos que ela \u00e9 apenas um sintoma de um mal-estar mais geral que afecta aquela parte do mundo. Uma vez erradicada a amea\u00e7a contingente, ser\u00e1 necess\u00e1rio atacar as causas, se n\u00e3o quisermos correr o risco de que ela se repita sob outra forma, mas com os mesmos efeitos devastadores. Ao mal pode-se reagir isolando-o, tornando-o est\u00e9ril, sem outras consequ\u00eancias que possam ampliar o efeito inicial j\u00e1 prejudicial. \u00c9 preciso isolar o Isis subtraindo-lhe a fonte de subsist\u00eancia, o apoio de que goza entre as popula\u00e7\u00f5es pobres e facilmente influenci\u00e1veis pela propaganda anti-ocidental, eliminando assim as raz\u00f5es desse apoio; por outras palavras, \u00e9 preciso agir para mudar as condi\u00e7\u00f5es de vida das popula\u00e7\u00f5es ainda deixadas \u00e0 margem do desenvolvimento. Ao longo da hist\u00f3ria sempre prevaleceu a domina\u00e7\u00e3o de poucos sobre muitos, as guerras e conquistas tinham como objetivo submeter as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis a fim de explorar os seus bens territoriais. Mesmo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial e o fim dos regimes coloniais, as coisas n\u00e3o mudaram substancialmente: a ocupa\u00e7\u00e3o militar foi substitu\u00edda, como j\u00e1 foi referido, por uma supremacia de tipo econ\u00f3mico-financeiro, que v\u00ea 50% da riqueza mundial controlada por menos de 100 empresas multinacionais. As r\u00e9deas do poder pol\u00edtico dependem das r\u00e9deas do poder financeiro, que, em conjunto, visam manter inalteradas as estruturas sociais e econ\u00f3micas, apresentando-as como as mais adequadas para assegurar o nosso bem-estar, mesmo que seja a causa dos desequil\u00edbrios que deixam na pobreza uma grande parte do mundo. Assim sendo, e tendo em conta as reac\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a surgir, ser\u00e1 que podemos continuar a dizer que o modelo econ\u00f3mico que prevalece hoje ser\u00e1 capaz de garantir o nosso bem-estar no futuro?        <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Mais uma vez, devemos ter a for\u00e7a de dizer que o rei est\u00e1 nu!<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Penso que a \u00fanica abordagem construtiva a adotar \u00e9 perguntarmo-nos que pol\u00edtica e que modelo de desenvolvimento garantir\u00e3o melhor o nosso bem-estar e o dos outros no futuro, para al\u00e9m do interesse atual dos sujeitos individuais envolvidos.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Apoiar tal tese n\u00e3o significa ceder ao idealismo, n\u00e3o \u00e9 uma conspira\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, mas \u00e9 puro pragmatismo, que ultrapassa o mero problema relacionado com a derrota do Isis e do terrorismo internacional. A popula\u00e7\u00e3o mundial vai atingir cerca de 9 mil milh\u00f5es de pessoas, a maioria das quais se concentrar\u00e1 nos pa\u00edses asi\u00e1ticos e africanos, principalmente de f\u00e9 isl\u00e2mica. Poderemos suportar a press\u00e3o das suas leg\u00edtimas expectativas, pagando o pre\u00e7o das inevit\u00e1veis tens\u00f5es que o crescimento da desigualdade necessariamente trar\u00e1 consigo?  <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Penso que o nosso bem-estar futuro n\u00e3o pode ser pensado contra o resto do mundo, mas em conjunto com ele. A palavra de ordem deve ser &#8220;partilha&#8221; e n\u00e3o mais &#8220;apropria\u00e7\u00e3o&#8221;! <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Devemos basear-nos num princ\u00edpio de justi\u00e7a que tenha em conta as necessidades de todo o planeta e assegurar que este princ\u00edpio possa ser partilhado por todos os povos que o habitam. Para tal, \u00e9 necess\u00e1rio avaliar o problema como um todo, \u00e9 necess\u00e1rio repensar o acesso aos recursos produtivos e \u00e0 riqueza mundial. Em tempos de globaliza\u00e7\u00e3o da economia e da informa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel manter a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 margem do bem-estar, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel que alguns pa\u00edses possam consumir 90% dos recursos e esperar que os outros se mantenham calmos e observem, sem consequ\u00eancias de qualquer tipo. Seremos capazes de desenvolver um novo paradigma socioecon\u00f3mico que substitua o controlo e a explora\u00e7\u00e3o da riqueza por uns poucos pela solidariedade e a coopera\u00e7\u00e3o, sem que haja o choque de civiliza\u00e7\u00f5es que muitos j\u00e1 temem? Fazer com que a prosperidade se generalize, devolver aos povos o controlo dos seus pr\u00f3prios recursos \u00e9 a melhor forma de garantir o futuro da humanidade e, por conseguinte, o nosso.    <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>\u00c9 uma vis\u00e3o que s\u00f3 estadistas genu\u00ednos e com vis\u00e3o de futuro poder\u00e3o ter a capacidade de levar por diante, tamb\u00e9m nos organismos internacionais j\u00e1 existentes. Mas, na arena pol\u00edtica internacional, assistimos antes \u00e0 preval\u00eancia de interesses m\u00edopes, que visam maximizar os resultados a curto prazo dos Estados individualmente representados, quer por raz\u00f5es eleitorais, quer por raz\u00f5es pessoais. <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Entretanto, as consequ\u00eancias desta miopia s\u00e3o vis\u00edveis para todos e est\u00e3o a gerar um drama com poucos precedentes, exacerbado pelas reac\u00e7\u00f5es induzidas nos pa\u00edses europeus, absolutamente desprovidos dessa clarivid\u00eancia que acab\u00e1mos de defender: refiro-me, naturalmente, ao \u00eaxodo dram\u00e1tico para a Europa.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Uma parte deste fluxo depende de situa\u00e7\u00f5es contingentes, como a guerra em curso na S\u00edria e nos territ\u00f3rios ocupados pelo ISIS, que esperamos que termine com a cessa\u00e7\u00e3o das hostilidades. Mas a maioria dos migrantes deixa os seus pa\u00edses principalmente devido \u00e0 pobreza e \u00e0 falta de perspectivas. Entre os muitos desafios que coloca, existe tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o generalizada de que a imigra\u00e7\u00e3o em massa conduza \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o do tecido social e dos valores \u00e9ticos e morais que at\u00e9 agora caracterizaram os pa\u00edses europeus, causando eventualmente o decl\u00ednio e o potencial desaparecimento da sua pr\u00f3pria cultura. H\u00e1 quem diga que um fluxo migrat\u00f3rio descontrolado pode conduzir a um verdadeiro genoc\u00eddio nos pa\u00edses de destino, como o que ocorreu nas Am\u00e9ricas relativamente aos povos pr\u00e9-colombianos e aos \u00edndios americanos, justificando assim as v\u00e1rias barreiras f\u00edsicas, jur\u00eddicas e psicol\u00f3gicas erguidas para bloquear esse fluxo. Mas talvez a miopia do mundo ocidental seja, por si s\u00f3, a causa dos seus pr\u00f3prios problemas.    <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Os mesmos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que est\u00e3o na base do nosso bem-estar, atrav\u00e9s da difus\u00e3o mundial dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, da Internet e das redes sociais, mostraram em toda a sua brutalidade o enorme fosso entre o &#8220;norte e o sul&#8221; do mundo, tornando as sociedades mais pobres conscientes da sua situa\u00e7\u00e3o real e criando um desejo leg\u00edtimo de a melhorar. Podemos condenar a aspira\u00e7\u00e3o a uma vida melhor? E onde \u00e9 que ela pode ser cultivada sen\u00e3o nos pa\u00edses que mostram imagens de uma sociedade rica e feliz? A nossa cultura e o nosso bem-estar n\u00e3o est\u00e3o em risco por causa dos migrantes, mas sim porque pusemos em risco a nossa identidade, renunciando \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 compreens\u00e3o de que o patrim\u00f3nio a salvaguardar \u00e9 o de toda a humanidade e n\u00e3o apenas a nossa pr\u00f3pria prosperidade.   <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>O \u00eaxodo deve ser travado n\u00e3o por causa dos problemas que possa causar \u00e0 nossa sociedade, mas porque o acontecimento em si \u00e9 inerentemente desumano, porque s\u00e3o essas as raz\u00f5es que o provocam.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Uma mudan\u00e7a de perspetiva desta magnitude n\u00e3o se esgota numa gera\u00e7\u00e3o: passa pela educa\u00e7\u00e3o da humanidade, para recuperar a consci\u00eancia da verdadeira dimens\u00e3o humana e o significado da presen\u00e7a deste plano. O que eu desejo \u00e9 uma humanidade em viagem, em evolu\u00e7\u00e3o, que pode e deve viver as transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o como sinais de decl\u00ednio ou de abandono das suas identidades, mas sim como uma vontade clara de se adaptar ao que \u00e9 melhor para as necessidades reais de todos os indiv\u00edduos, definidas com base nos direitos naturais da pr\u00f3pria exist\u00eancia, de fazer parte de uma ordem c\u00f3smica que devemos preservar e proteger. A realidade n\u00e3o \u00e9 objetiva, imut\u00e1vel, independente da nossa vontade. Trabalhando sobre as consci\u00eancias individuais e depois sobre a vontade subsequente, podemos mudar a realidade. Isto exige uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o do processo mental. De facto, as pessoas normalmente julgam e relacionam-se com os outros com base nos seus padr\u00f5es de pensamento, h\u00e1bitos, tradi\u00e7\u00f5es e leis, numa palavra, com base na sua cultura, que se foi formando e estratificando ao longo de muitos anos. O encontro com o novo, com o desconhecido, gera tens\u00f5es, medos e d\u00favidas, aos quais a maioria das pessoas reage isolando-se e invocando o regresso ao passado, tentando de todas as formas afastar o problema, recusando-se a enfrent\u00e1-lo, a procurar as causas dos fracassos e a explorar poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es; e, em nome da seguran\u00e7a e da tranquilidade, est\u00e3o dispostas a abdicar de alguma da sua liberdade (t\u00e3o duramente conquistada ao longo dos anos).      <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>\u00c9 exatamente isso que est\u00e1 a acontecer na Europa em resposta ao \u00eaxodo que chega. A Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o foi capaz de dar uma resposta clara e corajosa a este acontecimento. A proposta de repartir o \u00f3nus do acolhimento dos imigrantes por todos os pa\u00edses foi contestada por muitos, foram erguidos muros e reintroduzidos os controlos nas fronteiras. Os pa\u00edses vizinhos que n\u00e3o pertencem \u00e0 Uni\u00e3o est\u00e3o a ser financiados para impedir que os refugiados continuem a sua migra\u00e7\u00e3o. A Gr\u00e3-Bretanha amea\u00e7a sair da assembleia e recebe concess\u00f5es, apesar da presum\u00edvel igualdade de todos os Estados-Membros. A verdade \u00e9 que o nacionalismo e os interesses particulares de cada pa\u00eds continuam a prevalecer e, em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, prevalecem geralmente sobre os entendimentos comuns.     <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>As roupas com que a Uni\u00e3o Europeia se cobre j\u00e1 est\u00e3o gastas e n\u00e3o s\u00e3o cred\u00edveis. Devemos ver que o rei est\u00e1 novamente nu. Porque \u00e9 que n\u00e3o o fazemos? N\u00e3o o podemos (ou n\u00e3o queremos) fazer, temendo as consequ\u00eancias que da\u00ed devem advir? De facto, compreend\u00ea-lo poderia representar a singularidade, a assimetria que nos empurraria inevit\u00e1vel e necessariamente para um ato evolutivo que resultaria no abandono do mundo &#8220;confort\u00e1vel&#8221; que tom\u00e1mos at\u00e9 agora e nos entregaria \u00e0 necessidade da descoberta, da cria\u00e7\u00e3o de um mundo novo, utilizando a liberdade criativa t\u00e3o temida pelas massas e suas hierarquias.    <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Neste ponto, podemos concluir a hist\u00f3ria de Anderson. O que acontece depois de a crian\u00e7a ter declarado a nudez do rei? Bem, absolutamente nada:  <\/p>\n\n<p>O Imperador estremeceu, pois suspeitava que eles tinham raz\u00e3o. Mas ele pensou: &#8220;Esta prociss\u00e3o tem de continuar&#8221;. Por isso, caminhava mais orgulhoso do que nunca, enquanto os seus fidalgos erguiam o comboio que n\u00e3o existia.  <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>\u00c9 improv\u00e1vel que o poder renuncie a si pr\u00f3prio, repense e se modifique, mesmo quando confrontado com falhas \u00f3bvias. E encontrar\u00e1 sempre um bando de bajuladores prontos a segui-lo, porque eles s\u00e3o a fonte do seu ser e do seu sustento. A menos que ocorra um acontecimento subversivo, n\u00e3o necessariamente de natureza violenta: mesmo uma consci\u00eancia diferente e partilhada do \u00e9 subversiva, desde que se traduza em a\u00e7\u00e3o.  <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Onde \u00e9 que a Ma\u00e7onaria se pode situar em tudo isto? Que papel pode desempenhar num quadro t\u00e3o complexo e deteriorado? Certamente, a primeira tarefa \u00e9 formar consci\u00eancias de acordo com a sua perspetiva: uma vis\u00e3o da realidade n\u00e3o afetada por preconceitos, pr\u00e9-conceitos, cultura dominante, pelos interesses desta ou daquela fa\u00e7\u00e3o em jogo, de modo a desenhar um quadro que responda tanto quanto poss\u00edvel \u00e0s necessidades reais da humanidade no seu conjunto. Mas isto n\u00e3o \u00e9 suficiente. Deve assumir um papel &#8220;subversivo&#8221;. Ao longo da sua hist\u00f3ria centen\u00e1ria, creio que a Ma\u00e7onaria deu o melhor de si n\u00e3o s\u00f3 quando interpretou corretamente a natureza dos problemas, mas quando, gra\u00e7as a essa interpreta\u00e7\u00e3o correcta, se empenhou na difus\u00e3o de ideias fortes, orienta\u00e7\u00f5es capazes de transformar e definir uma \u00e9poca. Para al\u00e9m de potenciais ac\u00e7\u00f5es contingentes, nas quais cada adepto pode ainda empenhar-se a t\u00edtulo pessoal, colaborando com uma das muitas associa\u00e7\u00f5es existentes, como a assist\u00eancia aos refugiados, considero que a Ma\u00e7onaria, enquanto forma-pensamento, pode manifestar-se plenamente na resposta aos desafios epocais que exigem uma mudan\u00e7a de paradigma cultural. Penso no contributo que deu, por exemplo, para a forma\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o do pensamento iluminista, que deu origem aos pa\u00edses liberais modernos, para a reda\u00e7\u00e3o da Carta dos Direitos do Homem, para a cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es como a Liga das Na\u00e7\u00f5es antes e a ONU depois, para o Risorgimento italiano, etc. Marcos na hist\u00f3ria da humanidade, que exigiram o empenhamento de gera\u00e7\u00f5es de homens.        <br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Mesmo agora estamos perante um desafio geracional, e o melhor recurso de que dispomos para o enfrentar, aquele que a longo prazo pode dar maiores garantias de sucesso, passa pela educa\u00e7\u00e3o dos jovens, porque s\u00e3o eles os mais aptos a aceitar novas ideias.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>O grande cientista Niels Bohr, um dos pais da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, dizia que as novas ideias n\u00e3o se imp\u00f5em porque os cientistas reconhecem unanimemente a sua validade, mas porque as novas gera\u00e7\u00f5es as absorvem enquanto crescem.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o do Mil\u00e9nio das Na\u00e7\u00f5es Unidas, ratificada em 2000 por 186 chefes de Estado e de Governo durante a Sess\u00e3o Extraordin\u00e1ria da Assembleia Geral da ONU, indica os oito principais objectivos a prosseguir, os Objectivos do Mil\u00e9nio; o segundo ponto, depois da redu\u00e7\u00e3o para metade da pobreza e da fome, \u00e9 a garantia de uma educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica universal.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Eis um objetivo digno da Ma\u00e7onaria: apoiar o desenvolvimento de programas de estudo homog\u00e9neos que privilegiem o sentido da conviv\u00eancia, da coopera\u00e7\u00e3o e do interc\u00e2mbio cultural, a igual dignidade das pessoas, a intera\u00e7\u00e3o entre os povos, para que as gera\u00e7\u00f5es futuras possam crescer sentindo-se envolvidas no conjunto humano mais vasto e n\u00e3o como cidad\u00e3os de um \u00fanico Estado, e possam tamb\u00e9m reconsiderar as formas de conviv\u00eancia socioecon\u00f3mica a fim de eliminar os desequil\u00edbrios hoje existentes.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Para que tudo n\u00e3o fique na mera inten\u00e7\u00e3o, um primeiro passo importante que poder\u00edamos dar a n\u00edvel europeu \u00e9 utilizar uma iniciativa legislativa popular: realizar uma campanha de assinaturas nos pa\u00edses da UE para apoiar um projeto de lei que o Parlamento Europeu ter\u00e1 depois a obriga\u00e7\u00e3o de analisar e questionar.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Este projeto de lei poderia ser chamado de &#8220;Carta Montebelli&#8221;, com a qual n\u00e3o s\u00f3 se promove a uniformiza\u00e7\u00e3o dos programas de estudo para criar bases culturais comuns para as gera\u00e7\u00f5es futuras, mas tamb\u00e9m se prev\u00ea um per\u00edodo de frequ\u00eancia obrigat\u00f3ria de escolas de outros pa\u00edses da UE para os estudantes do ensino secund\u00e1rio, a fim de incentivar o crescimento de verdadeiros cidad\u00e3os europeus.<br\/><br\/><\/p>\n\n<p>Seria apenas um primeiro passo, certamente n\u00e3o definitivo nem conclusivo, mas significativo pelas perspectivas que abriria. Compreendo a enormidade do compromisso, mas o que est\u00e1 em jogo \u00e9 tamb\u00e9m extremamente importante, porque pode tornar-se uma fonte importante do futuro de coexist\u00eancia pac\u00edfica e bem-estar generalizado que esper\u00e1vamos. Um compromisso e um desafio que a Ma\u00e7onaria n\u00e3o s\u00f3 pode aceitar como tamb\u00e9m vencer, desde que o queira realmente.  <br\/><br\/>Foi o que eu disse&#8230;<br\/><br\/><\/p>\n\n<p class=\"has-text-align-left\">B\u2234 A\u2234 T\u2234<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez um rei cujo \u00fanico interesse na vida era vestir-se com roupas da moda. Estava sempre a mudar de roupa para que as pessoas o pudessem admirar. 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